2005/12/31
Amazon.com: autores com blogues
"Ser um autor e ter a possibilidade de enviar mensagens aos leitores que compraram os nossos livros na Amazon.com através da criação de um blogue pessoal, que pode ser actualizado rapidamente, parece uma boa ideia. Foi disso que a maior livraria "on-line" do mundo se lembrou. É isso o Amazon Connect que teve início o mês passado. O projecto ganhou agora visibilidade, porque há alguns dias o jornal norte-americano "The New York Times" publicou um artigo - "A chance to meet the author on-line", de Edward Wyatt - sobre esta novidade.
Ligados ao projecto ainda estão só cerca de 12 autores - nenhum daqueles muito conhecidos - e nas páginas da Amazon.com ainda não é muito visível esta sessão dos blogues. Mas a equipa da Amazon já está a trabalhar com várias editoras para cativar autores para o projecto e para utilizar algum do material que as editoras muitas vezes já têm disponível nos seus "sites" oficiais, mas que não chega ao conhecimento das pessoas que compram livros através da Amazon, porque não têm por hábito andar a visitar "sites" de editoras da mesma forma que vão visitar o "site" da Amazon.
Com a Amazon Connect pretende-se aproximar os autores e os seus fãs, fazer com que naquela livraria se vendam mais livros por causa dos "posts" colocados "on-line" pelos escritores e das conversas à volta deles. Na Amazon.com existe uma secção onde colocaram as habituais Perguntas Mais Frequentes sobre o projecto Amazon Connect e onde explicam aos autores que queiram vir a fazer parte do projecto como se podem inscrever. As suas mensagens irão aparecer ao lado das críticas ao livro feitas por leitores ou outras retiradas de publicações que fazem recensões de livros. Agora, o que surge ao lado das habituais críticas é uma sessão intitulada Amazon Connect onde podemos ver uma foto do autor e os "posts" que aí colocou.
Alguns dos autores que já ali têm blogues e foram referidos no artigo do "New York Times" são Meg Wolitzer (publicou um romance que se chama "The Position"); Anita Diamant (autora de "The Last Days of Dogtown"); David Dodd, autor de "The Complete Annotated Grateful Dead Lyrics", e Pete Hautman (que com "Godless" ganhou o National Book Award para literatura infantil em 2004). Alguns dos "posts" são confessionais, como por exemplo os de Pete Hautman, que colocou lá um "post" a propósito das críticas que o seu livro "Invisible" teve e sobre a forma como os críticos interpretaram a obra, comparando com aquilo que ele quis fazer quando a escreveu. Ou outro do mesmo género: "Quando acabo de ler um bom livro com personagens de que gosto, fico sempre triste quando chego ao fim. Quero ler o livro "seguinte". Quero ler a sequela! Se não existe sequela, às vezes volto atrás e releio o livro. Reler um livro nunca é tão bom como da primeira vez. Ainda assim, li o "Senhor dos Anéis" cinco vezes e li todos os romances do Jack Vance pelo menos duas vezes. Mas o que eu queria mesmo era a sequela. "Yeah"! Escreva-me um outro livro!
"A razão por que vos estou a contar isto é porque recebo imensos "e-mails" de leitores a pedirem-me para escrever sequelas de "Sweetblood" e de "Hole in the Sky". Eu percebo os pedidos. Mas, lamento, não estou a pensar em escrever sequelas de nenhum destes livros", escreve Pete Hautman.
O projecto Amazon Connect é grátis para os autores que tenham pelo menos um livro à venda na Amazon."
2005/12/30
Sobre novo romance de Hélia Correia
"Livro, fenómeno de moda"
2005/12/28
"É a cultura, estúpido!"
2005/12/26
Fernando Echevarría
Sobre o consumo de bens culturais
2005/12/18
O Padre Manuel Antunes
2005/12/09
Laurent Lafforgue
2005/12/07
A literatura e a vida (2)
Não sei se um presidente da República deve recitar o poema em público. Admito que sim, se estiver para aí virado. Imagino facilmente, e não me choca, que Manuel Alegre evoque Camões quando lhe apetecer; ele tem uma leitura pessoal e respeitável de "Os Lusíadas". Ocupou-se dela, reflectiu e não assenta em banalidades.
Ora, eu cito "Os Lusíadas" porque Mário Soares levanta permanentemente a questão do "humanismo" e do "perfil humanista" dos candidatos a Belém. Sinceramente, é um assunto que me preocupa muito pouco. Já me preocupou em tempos, mas sei hoje que a instrumentalização da cultura e dos autores é uma arma medíocre. Aliás, a propósito de "humanismo" (que é tomado, erradamente, por "conhecimento das belas letras"), não percebo por que é que os "humanistas" têm de conhecer "Os Lusíadas" mas podem ignorar Verney (que detestava Camões), Ribeiro Sanches, Luiz da Cunha, Francisco de Hollanda, Ribeiro de Macedo, Herculano, ou os polemistas do século XIX.
Mas o que está em causa é "um presidente que dê a ideia de ser um homem culto". A ideia é que ele respeite "a cultura" (a gente que assina documentos públicos e tem poder no "sistema cultural" e nas "associações do sector"), os músicos e os cineastas. Não é má ideia, tirando que a literatura não se faz nas "associações do sector" e que a cultura não é propriedade do "sistema cultural" e do complexo de cargos para que há nomeações e comissariados. O que me incomoda, e sempre incomodou, é a imagem do político que gosta de reunir essa gente e que treme de comoção quando "os artistas" lhe dizem que estão muito honrados por serem aceites na corte.
Um presidente que respeite a cultura e que não suborne os escritores, os músicos, os pintores, é bom. É magnífico. Mas eu prefiro que, além disso, o presidente deixe "a cultura" em paz e que, em vez disso, seja honesto, imune a pressões corporativas e pedidos de favorecimento, e seja incapaz de pressionar "a cultura".
Quais são os livros de Soares? Ah, "Os Lusíadas", a "Peregrinação", etc.. E quais são os livros de Alegre? Ah, "Os Lusíadas", a "Peregrinação", etc.. E quais são os livros de Cavaco? Ah, "Os Lusíadas", a "Peregrinação", etc.. Esqueci-me de Pessoa e de Eça ou Camilo, mas o leitor fará a lista mentalmente. Ora, esses livros são os "nossos livros", o nosso cânone e, curiosamente, livros que até já nem se estudam nas nossas escolas por obra e graça dos ministros da Educação desde os anos 80.
Como cada um deles lê "Os Lusíadas"? Não me interessa. Se eu quiser especialistas em Camões, leio Jorge de Sena, Graça Moura, Hélder Macedo, Aguiar e Silva, etc.. Eu quero que ele, o presidente, se ocupe do país, não que me dê más lições de literatura.
Se as eleições se transformassem numa sabatina, até imagino que teríamos uma surpresa. Mas eu não gostaria de ver os cidadãos mergulhados nessa metafísica tarefa de comparar conhecimentos literários. Seria um espectáculo triste."
A literatura e a vida (2)
Não sei se um presidente da República deve recitar o poema em público. Admito que sim, se estiver para aí virado. Imagino facilmente, e não me choca, que Manuel Alegre evoque Camões quando lhe apetecer; ele tem uma leitura pessoal e respeitável de "Os Lusíadas". Ocupou-se dela, reflectiu e não assenta em banalidades.
Ora, eu cito "Os Lusíadas" porque Mário Soares levanta permanentemente a questão do "humanismo" e do "perfil humanista" dos candidatos a Belém. Sinceramente, é um assunto que me preocupa muito pouco. Já me preocupou em tempos, mas sei hoje que a instrumentalização da cultura e dos autores é uma arma medíocre. Aliás, a propósito de "humanismo" (que é tomado, erradamente, por "conhecimento das belas letras"), não percebo por que é que os "humanistas" têm de conhecer "Os Lusíadas" mas podem ignorar Verney (que detestava Camões), Ribeiro Sanches, Luiz da Cunha, Francisco de Hollanda, Ribeiro de Macedo, Herculano, ou os polemistas do século XIX.
Mas o que está em causa é "um presidente que dê a ideia de ser um homem culto". A ideia é que ele respeite "a cultura" (a gente que assina documentos públicos e tem poder no "sistema cultural" e nas "associações do sector"), os músicos e os cineastas. Não é má ideia, tirando que a literatura não se faz nas "associações do sector" e que a cultura não é propriedade do "sistema cultural" e do complexo de cargos para que há nomeações e comissariados. O que me incomoda, e sempre incomodou, é a imagem do político que gosta de reunir essa gente e que treme de comoção quando "os artistas" lhe dizem que estão muito honrados por serem aceites na corte.
Um presidente que respeite a cultura e que não suborne os escritores, os músicos, os pintores, é bom. É magnífico. Mas eu prefiro que, além disso, o presidente deixe "a cultura" em paz e que, em vez disso, seja honesto, imune a pressões corporativas e pedidos de favorecimento, e seja incapaz de pressionar "a cultura".
Quais são os livros de Soares? Ah, "Os Lusíadas", a "Peregrinação", etc.. E quais são os livros de Alegre? Ah, "Os Lusíadas", a "Peregrinação", etc.. E quais são os livros de Cavaco? Ah, "Os Lusíadas", a "Peregrinação", etc.. Esqueci-me de Pessoa e de Eça ou Camilo, mas o leitor fará a lista mentalmente. Ora, esses livros são os "nossos livros", o nosso cânone e, curiosamente, livros que até já nem se estudam nas nossas escolas por obra e graça dos ministros da Educação desde os anos 80.
Como cada um deles lê "Os Lusíadas"? Não me interessa. Se eu quiser especialistas em Camões, leio Jorge de Sena, Graça Moura, Hélder Macedo, Aguiar e Silva, etc.. Eu quero que ele, o presidente, se ocupe do país, não que me dê más lições de literatura.
Se as eleições se transformassem numa sabatina, até imagino que teríamos uma surpresa. Mas eu não gostaria de ver os cidadãos mergulhados nessa metafísica tarefa de comparar conhecimentos literários. Seria um espectáculo triste."
Prémio Albatros para Lídia Jorge
"A escritora Lídia Jorge recebeu "com muita emoção" a notícia da atribuição, hoje anunciada, do Prémio de Literatura "Albatros", da Fundação Günter Grass, na Alemanha, pelo seu livro "O Vento Assobiando nas Gruas". Em declarações à Agência Lusa, a escritora comentou ter ficado muito comovida, segunda-feira, quando soube da atribuição do prémio, este ano em primeira edição, através de um membro do júri. A acção de "O Vento Assobiando nas Gruas" decorre em Portugal e relata uma história de amor entre uma jovem portuguesa e um africano, "mas o júri foi para além da questão passional, sublinhando as questões sociais e políticas" do romance. O júri do galardão "fez uma leitura mais profunda, por detrás da vida de figuras comuns e marginais da sociedade", acrescentou a autora, referindo ainda que a obra envolve um fundo de interpretação política e social, nomeadamente nas questões do racismo e da xenofobia. Lídia Jorge confessou ter uma grande admiração por Günter Grass, "um escritor interventor activo na sociedade e que está do lado dos desfavorecidos. Ele faz uma reclamação de justiça através da beleza da literatura". A autora identifica-se com esta postura de Günter Grass e defende que os escritores devem ter um papel interventivo no seu trabalho: "A justiça é uma das faces da beleza", resumiu. O Prémio Internacional "Albatros" foi instituído pela Fundação Günter Grass, Prémio Nobel da Literatura, e tem como objectivo "promover o livre pensamento e livre confronto com todos os domínios da vida, do mundo e do nosso tempo". A autora de "A Costa dos Murmúrios" também ficou particularmente feliz pela atribuição deste galardão porque "vem de um país que aposta na literatura e valoriza muito a leitura". "Fico muito contente por os leitores alemães se terem impressionado com o meu livro", disse, referindo ainda que esta atribuição também lhe provoca um sentimento de "maior responsabilidade". "O Vento Assobiando nas Gruas" foi editado em Portugal em 2002, recebeu o Grande Prémio Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores (APE) em 2003 e foi finalista do Prémio Femina, em França. "O Dia dos Prodígios" e "O Vale da Paixão" são outras obras da autora portuguesa também traduzidas em alemão. Lídia Jorge comentou ainda que este "é um prémio simpático" por ser também atribuído à tradução, "o que é pouco comum". A tradutora do livro, Karin von Schweder-Schreiner, irá receber 15 mil euros, enquanto à autora estão destinados 25 mil euros. O prémio, que será atribuído de dois em dois anos a obras de prosa, poesia ou ensaio, será entregue a Lídia Jorge em Maio de 2006." |
2005/12/06
"Profissões do Livro"

A edição foi feita pela Editorial Verbo e a apresentação da obra será feita por António Firmino da Costa (ISCTE) e Ivo Castro (FLUL).
2005/12/05
Jacinto do Prado Coelho homenageado na FLL

Novo trabalho
2005/12/03
Ainda sobre Fernando Pessoa e outras coisas mais
"O É a cultura, estúpido! realiza-se na última quarta-feira do mês, às 18h30, no Jardim de Inverno do Teatro Municipal de São Luiz, em Lisboa. Depois de dois anos a discutirem a actualidade, estão agora a "tentar adivinhar o futuro - o que aí vem em vários domínios". As sessões passaram a ser temáticas, com um painel de convidados e a animação da conversa garantida por dois apresentadores rotativos - um moderador e um "agente provocador", ambos da equipa residente (Anabela Mota Ribeiro, Daniel Oliveira, José Mário Silva, Nuno Costa Santos, Pedro Mexia e Nuno Artur Silva, coordenador).
E porque foi precisamente na última quarta-feira do mês passado que ocorreram 70 anos sobre a morte de Fernando Pessoa, que figurava nas antigas notas de 100 escudos, e a sua obra ficou em domínio público, esse era tema do encontro que ali decorreu. Pois quem não teve a possibilidade de estar presente no debate poderá, agora, muito refastelado em frente ao computador, consultar o blogue do evento, organizado pelas Produções Fictícias.
Ora no blogue os interessados podem "comentar, perguntar, adivinhar, criticar, fazer futurologia, sugerir, descrever, enviar fotos, linques sobre o tema ou ficheiros mp3".
Estão lá alguns dos conteúdos do debate anterior cujo tema era "A televisão, tal como a conhecemos, acabou" e onde várias pessoas participaram enviando perguntas. Para a preparação da sessão sobre Pessoa as perguntas não abundaram, pelo menos não estão colocadas "on-line", mas os organizadores foram colocando poemas de Pessoa todos os dias, bem como "links" para "sites" que referem o escritor, curiosidades, imagens e textos de alguns dos membros da equipa residente. Está lá um "post" com a frase "Faça você mesmo" e com um "link" para a Online Magnetic Poetry, um "site" muito giro onde se pode brincar com as palavras tal e qual como o fazemos com aqueles jogos de palavras feitos com os ímanes que se colocam nos frigoríficos.
Há uma citação de Umberto Eco que dá que pensar: "As obras literárias convidam-nos à liberdade de interpretação, porque nos propõem um discurso a partir dos inúmeros planos de leitura e nos colocam perante as ambiguidades da linguagem e da vida. (...) [Mas] em relação ao mundo dos livros, proposições como "Sherlock Holmes era solteiro", "a Capuchinho Vermelho foi devorada pelo lobo mas depois libertou-a o caçador" e "Anna Karenina mata-se" permanecerão eternamente verdadeiras e nunca poderão ser refutadas por ninguém. Há pessoas que negam que Jesus fosse filho de Deus, outras que inclusivamente põem em causa a sua existência histórica, outras que afirmam que "é o Caminho, a Verdade e a Vida", outras ainda que consideram que o Messias ainda está para vir e nós, seja como for que pensemos, tratamos com respeito estas opiniões. Mas ninguém tratará com respeito quem afirmar que Hamlet se casou com Ofélia ou que o Super-homem não é Clark Kent. (...) O mundo da literatura é de molde a inspirar-nos a confiança de que há algumas proposições que não podem ser postas em dúvida, e oferece-nos, por isso, um modelo, imaginário até onde quisermos, de verdade. (...) A função dos contos "inalteráveis" é justamente esta: contra todos os nossos desejos de mudar o destino, dão-nos palpavelmente a impossibilidade de o alterar. E assim fazendo, seja qual for a história que contem, também contam a nossa e por isso os lemos e amamos. Temos necessidade da sua lição "repressiva". A narrativa hipertextual pode educar-nos para a liberdade e para a criatividade. É bom, mas não é tudo. Os contos "já feitos" ensinam-nos também a morrer. Creio que esta educação para o Fado e para a morte será uma das principais funções da literatura." in "Sobre Literatura", de Umberto Eco (Difel)
Há um "link" para o blogue de Rui Almeida, Poesia Distribuída na Rua e um outro para um blogue inteiramente dedicado a Fernando Pessoa.
E prometem vir a colocar resumos da sessão de quarta-feira moderada por José Mário Silva e que teve como convidados Fernando Cabral Martins, Richard Zenith, Manuela Parreira da Silva, Pedro Mexia e José Afonso Furtado (que leu um texto que será colocado "online" sobre o futuro do livro e da leitura). "I know not what tomorrow will bring", a última frase escrita por Fernando Pessoa, em inglês, foi o mote da sessão. A esperar estamos."
2005/12/02
A literatura e a vida (1)
2005/12/01
Entrevista a Gonçalo M. Tavares

Memórias de Fernando Assis Pacheco
""Eu vi? ouvi a morte? /e por instantes/ era ela - luz negra - / tentando cegar-me." Três dias depois da última correcção a este poema a que chamou Respiração Assistida, Fernando Assis Pacheco morreu aos 58 anos, à porta da livraria Bucholz, em Lisboa. Foi a 30 de Novembro de 1995, faz hoje dez anos."
Pode continuar a ler aqui.
Fernando Pessoa também no "Público"
O 70º aniversário da morte de Pessoa no "Diário de Notícias"
